Perguntei quem era ele. Contou-me de sua doença. Operaria amanhã. Voltei a perguntar quem era ele. Disse que havia se aposentado. Insisti que a pergunta ainda não tinha resposta. Vendo que a mãe lhe deu um nome diferente de “diagnóstico”, desembuchou: “eu fui um auxiliar de portaria”. Tinha tudo para pensar “ah, tá, um porteiro”. Aquela dedução lógica não fazia par com o tom do discurso dele. Tinha pompa. Tinha orgulho. Tinha amor. E continuou:” Sabe o que é auxiliar de portaria?”. Seu olhar de quem tem história para contar, me fez ver que a vida não pode ser tão lógica que minha resposta resuma-se em “ah, tá, um porteiro”. Escutar me parecia muito mais rico que falar qualquer coisa. Ele não titubeou: “Um auxiliar de portaria é nada mais nada menos que a porta de entrada de um estabelecimento”. Eu vou perder isso. Deixei que continuasse: “Isso não é pouca coisa não. Muita gente já me pediu informação. E dependendo do meu jeito de recebe-las elas vão subir para falar com o presidente da empresa de um jeito ou de outro. Além do que, muita gente importante já apertou a minha mão e precisou da minha ajuda para não se perder aqui dentro. Fora os que resolvem puxar assunto, enquanto não chega o elevador e me contam a vida toda. Talvez ninguém da família saiba coisas que eu soube. Ai que saudade de acordar com as galinhas, fazer a barba, vestir meu uniforme…”.
Chegou a hora de ouvir outras histórias de outras pessoas. Despedi-me com a absoluta certeza que valeu a pena insistir na pergunta, quando a resposta ainda não fez bem à alma. Ele não se chamava diagnóstico, nem era o leito “y” que operaria no dia seguinte. Ele era o auxiliar de portaria.
que lindo! Delícia ler suas crônicas! pelo visto pragmática é o q vc não é!! gostei muito!!
Vou sempre dar uma passadinha por aqui! ; )
bjos!