Eu sei que são três e cinco enquanto o moço pincela perfume de margarina sobre o milho quente. Meus dentes escorregam em delícia como quem entra no país de Alice.
O pianista do café da esquina arranha um jazz e o inverno me vem precoce na tua ausência.
Só agora noto que a parede descasca.
Por que a gente só ouve “My funny valentine” depois que os amores se vão…
O apetite vai comprar cigarros e não volta. Como você…
Enterro meu corpo em leituras e textos. Quem sabe os dias passam.
Autores me oferecem sorrisos sem data de vencimento.
Um dia novo, num mês outro chega e eu agradeço o vizinho por aumentar o som da vitrola. “Chovendo na Roseira”… Tom Jobim me lembra o recomeço. Primaveras…
O passado pede licença e se recolhe como a boa e velha música clássica na estante, para uma tarde ser apreciado sem me depreciar.
Já não são mais três e cinco. A vida pega bicicleta e dá voltas. Abre o sol. Eu também.
As avós já diziam: “É de menino que se torce o pepino.” E alguém era burro de tentar segurar aquele moleque com ginga de negão que fez o queixo de todo mundo cair com seu passinho para trás que todo mundo tentava imitar e ficava amador. Da Motown à Marte, se bobear, quis dar uma passadinha na lua com seu moonwalk. O grande inventor do grande passinho do século XX. Se bobear até um pivete de cinco anos de hoje ainda vai tentar imitar. E quando tentar seu pai vai cantar “Thriller”. O garoto vai gostar sem saber de quem é. E o pai vai dizer que fez muito aquilo nas festinhas.